sexta-feira, 10 de julho de 2015

Debate e sociedade

Muita coisa acontecendo, tudo junto, é debate por cima de gritaria, gritaria sufocando debate...

Um debate efetivo precisa reunir certo conjunto de características, ou melhor, obedecer certos princípios para não degenerar em gritaria, para alcançar seu objetivo fundamental que é, ou chegar a verdade, independente do que ela seja, no sentido socrático de "seguir o argumento para onde ele levar", ou nos deixar melhor informados, ampliar nosso conhecimento, acerca de um assunto.

Há alguns anos meu amigo, o filósofo português Desidério Murcho, os enumerou num texto fantástico de nome "Filosofia, lógica e democracia". Para ele os princípios são:

1. Respeitar e ouvir as pessoas que discordam de nós.
2. Estar disponível para mudar de ideias se nossos argumentos não resistirem à discussão.
3. Não mudar de assunto sem discutir plenamente aquele que está em debate.
4. Distinguir o central e relevante do que é periférico e acessório.
5. Não usar qualquer espécie de ataque pessoal.
6. Dominar aspectos elementares da lógica informal.
7. Conhecer a bibliografia relevante.
8. Pensar de maneira razoavelmente sistemática sobre o assunto.

Como se vê alguns dos princípios são pra hora do debate, outros pra antes dele. Ambos os tipos são de extrema importância. É fundamental se preparar bem para o que se quer debater elaborando seus argumentos a partir da leitura dos textos fundamentais sobre o assunto, ou seja, seguir os três últimos princípios, bem como comportar-se civilizadamente ouvindo ao opositor, respeitando seu direito de ter as opiniões que tem, apresentar-se firmemente nas suas posições com a legítima disposição de trocar de ideias se perceber a falsidade de sua própria posição etc.

Entretanto, não é o que vemos em debates fundamentais como os que se dão sobre redução da maioridade penal, lei do desarmamento, corrupção, entre outros. O que se vê é que os detentores das posições "de esquerda" criminalizam as posições contrárias mesmo que sejam defendidas por filiados a partidos da esquerda e ainda pior se não forem.

Para citar o exemplo da questão da maioridade penal. Qualquer um que não seja contra a redução é imediatamente taxado de "fascista", "conservador" ou "liberal". Tais denominações não são entretanto nomes de posicionamentos políticos, mas xingamentos pessoais que podem ser traduzidos por criminoso, bandido, canalha...

E a pessoa que quer apenas o direito a ter a opinião que não há bons argumentos que permitam que um sujeito com 16 ou mais anos, mas menos que 18, estupre ou mate uma pessoa, geralmente com requintes de crueldade, e fique sem punição, não consegue entender porque seria um criminoso ele próprio que não fez nada disso.

Assim, um debate que poderia avançar os argumentos das duas posições, colocá-las sobre escrutínio crítico, é transformado em enorme gritaria e numa guerra de posições em que não há ganhadores, em que todos perdem.

E isso, entre outros fatores, é resultado de falta de educação, não que faltem escolas ou pessoas nelas.

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