quinta-feira, 21 de março de 2013

A Globalização para o bem dos povos. Perspectivas da nova teoria política.


O tema da globalização, que se começou a analisar ativamente nos anos 90 do século passado, mantem a sua atualidade, fato que é comprovado pelos acontecimentos na arena mundial. Atrás das tentativas das coroporações transnacionais e de diversos projetos mundialistas se descortinam não só a sede de lucro, mas também de controle e domínio mundial. A origem é uma filosofia política que bebe nas fontes da antiga Grécia, onde originariamente se deram os dispositivos que posteriormente foram adotados e interpretados como indiscutíveis. Concordando em sua totalidade com uma série de argumentos de Jacques Derrida a respeito de que "o modelo ideal e eufórico da globalização, como um processo de abertura de fornteiras que faz o mundo mais homogênio, deve discutir-se com seriedade absoluta e extrema atenção. E isto, não só porque a homogeneização indicada - onde se levou a cabo ou assim se supõe- tem um anverso e um reverso (de risco aterrorizador, demasiado evidente para se perder tempo em sua descrição), senão porque a homogenização visível frequentemente oculta em si velhas e novas formas de desigualdade ou hegemonia (que chama-se homo-hegemonização), que devemos conhecer e reconhecê-las em sua nova fisionomia e lutar contra ela(1), nós assinalaremos apenas de passagem alguns marcos relacionados diretamente com as questões da globalização.

A primeira onda de globalizaçao se relaciona com a época dos grandes descobrimentos anterior a primeira guerra mundial. A segunda desde 1947 até 1991, é a época do mundo pós Yalta e da Guerra Fria. A terceira iniciou nos 90 e segue até o momento atual gerando uma multiplicidade de efeitos, tais como a virtualização da economia, a relocalização, a aparição de sociedades em rede. Ainda que o historiador americano Hopkins, junto com o redator da publicação "Foreign Policy" Moises Naim(2), afirmem que a globalização havia começado ja nos tempos do pré-modernismo com a migração dos povos, esta declaração - que leva em conta o significado das tradições, ritos e religiões que tinham as pessoas do pré-modernismo - não parece convincente. Quão justamente assinalou Luke Martell, examinando o espectro completo de modelos de globalização e as novas escolas e ensinamentos relacionados com ela, que a globalização neste contexto histórico não significa internacionalização(3). Vários investigadores assinalam agora que a onda inversa da globalização, com origem nos países em desenvolvimento, favorece as trocas econômicas nessas regiões e produz o desequilíbrio dos sujeitos da política mundia, e que se esta tendência se mantiver, pode levar a consequência imprevizíveis. É provável que não estejam de acordo comigo os partidários da teoria do caos e fundamentem que tais trocas são intrinsecamente inerentes a um sistema complexo e dinâmico, como o é sem dúvida qualquer estado, e tanto mais o são os blocos e as uniões. No entanto, o caos controlável pode utilizar-se também como um instrumento da globalização, do qual se valham os estrategistas do Ocidente em prol de seus interesses, coisa que propôs o diplomata americano Steven Mann nos anos 90 do século passado(4).

Nos foi necessário recordar as três ondas da globalização para permitirmos levar a cabo certa comparação com as três teorias políticas. Em um ou outro período dominaram determinadas ideologias, apoiadas não apenas na violência revolucionária, mas também em uma plataforma político-filosófica. No século passado se observava que três ideologias fundamentais se batiam entre si disputando a exclusividade e a dominação. Primeiro apareceu o liberalismo que considera como sujeito da história o indivíduo desembaraçado da complexa herança  cultural e das relações sociais. Como reação ao sistema burguês capitalista, expresso pelo liberalismo, apareceram o comunismo e o marxismo. Por último apareceu o fascismo, e o nacional-socialismo como uma versão daquele, mas foram os primeiros a desaparecer da arena internacional imediatamente após a derrota da Alemanha em 1945. Em 1991, logo depois da queda da URSS, o mundo soube da derrota da segunda teoria, que pretendia ser universal (ainda que algumas regiões, por exemplo na América Latina, o marxismo sofreu modificações e, em sua nova forma, demonstrou efetividade), e durante um tempo se impôs o triunfo do liberalismo(5). E toda esta luta das três teorias se dava no marco da época do modernismo, fato que assinalou magnificamente o filósofo de origem húngara Georg Lukacs em seu livro "O fim do século XX e o fim do modernismo".

Na atualidade, na época do pós modernismo, nós encontramos a onda da globalização relacionada com o liberalismo, o qual afirma a primazia da economia sobre as outras esferas, por tanto seria lógico tocas em alguns modelos e planos alternativos que estão do outro lado da economia, mas que a predeterminam em grande medida.

Definitivamente, entre os modelos de conduta e econômicos existe uma relação de forma inequiívoca. O "ethos" de um povo determinado, ligado a dispositivos conceituais, influi na formação de modelos de conduta social e de regime econômico. Por exemplo, a economia islâmica nega o crescimento percentual, fato que assinala o filósofo russo V. Soloviev falando sobre o princípio de " o saudável e o laboral" no Islã. Na Ortodoxia a economia, antes de mais nada, é "demostrói"(regras patriarcais). De acordo com o ensinamento cristão, as pessoas depois haverem pecado devem seguir ganhando o pão com o suor do seu rosto, "cooperam com o criador" sem duvidar de sua vontade. Semelhantes pontos de vista foram distorcidos pelo protestantismo e Max Weber(6) mostrou de forma convincente que, em grande parte, a atual economia liberal, de mercado, está construída sobre a base da ética protestante. Ernest Schumajer desenvolveu a doutrina absolutamente única da "economia budista", propondo novos princípios em relação ao trabalho e indicando justamente que "os economistas, de igual modo que outros especialistas, dofrem de cegueira metafísica"(7). Mesmo abstraindo-se das diversas crenças religiosas, contra as quais lutaram representantes de certas ideologias políticas, os arquétipos e o inconsciente coletivo permanecem. Carl Gustav Jung sintoniza com Max Weber acerca da crítica do liberalismo, ainda que o faça já como psicólogo. " O mundo sem símbolos do protestante conduz a um sentimentalismo insano no começo, logia a uma agudização dos conflitos morais"(8). A questão reside não somente nas desordens sexuais e psicológicas que analisava o cientista suiço. Os arquétipos e os símbolos se inscrevem totalmente no modelo econômico. O investigador norte americano Bernard Lietaer afirma que o atual sistema monetário e financeiro mundial está baseado no arquétipo patriarcal, donde o dinheiro é um meio de acumulação(9). Ao mesmo tempo, os demais arquétipos, faz muito tempo que se encontram deprimidos, e portanto, devido a esse desajuste, se produzem booms financeiros, bancarrotas, quedas da bolsa e demais cataclismas. No entanto, na história funcionou outro arquétipo, baseado no princípio matriarcal - Antigo Egito, Alta Idade Média etc. - onde o dinheiro atuava segundo o princípio de "demurrage" e era um meio de intercâmbio. Até o momento, por desgraça, hão há profundas investigações relacionadas com a influência dos arquétipos nas teorias econômicas heterodoxas desenvolvidas nos séculos XIX e XX, as quais são uma alternativa ao atual sistema central enraizado no projeto político concreto. Mas várias dessas teorias se apoiam em experimentos práticos, por exemplo, o projeto do dinheiro de Silvio Gesell, o qual produz um efeito colossal que influenciou diretamente no bem estar das comunidades. Os sistemas "dinheiristas" condicionais LETS(10), Time Dollar(11), WIR(12), sendo instrumentos de crédito mútuo e, naturalmente sem interesse, todavia representam um modelo maravilhoso de economia solidária dentro da sociedade.

No Japão existe a chamada "moeda de saúde", que se mede em horas de trabalho e se pode usar nos programas estatais de saúde pública. A efetividade de semelhantes sistemas foi indicada por investigadores contemporâneos. Mesmo aplicando mecanismos econômicos e bancários, no mundo há bastante exemplos de tal enfoque a respeito da distribuição de inversões e meios, o qual não se inscreve nos esquemas liberais. Por exemplo, as organizações tais como Triodos Bank(países baixos), Cultura Bank(Noruega), La Nef(França) e outras, se manipulam com princípios éticos muito claros que podem ser resumidos com a frase comum dos antiglobalistas "as pessoas são mais importantes que a ganância". Mais além disto, vários especialistas e analistas propuseram não poucos esquemas de estabilização econômica, baseada no princípio da democracia direta. Bello Walden, o analista principal do instituto Focus on Global South, de Bangkok, propõe os seguintes caminhos de superação da globalização por meio da economia:

1. A produção para o mercado interno, em lugar do externo, deverá ser novamente o centro de gravidade da economia.
2. Na economia deve dar-se o princípio da subsidiaridade.
3. A política comercial deve defender a economia local do efeito econômico destrutivo das estruturas corporativas e dos preços baixos.
4. A política industrial deve regenerar e fortalecer o setor manufatureiro.
5. As tarefas a longo prazo, destinadas a distribuição justa da renda, podem criar um mercado interno forte que assuma o papel de âncora econômica e crie recursos econômicos locais para o investimento.
6. A correção do crescimento econômico aumentará a qualidade de vida, e a maximização do enfoque objetivo diminuirá o desajuste relacionado ao meio circulante.
7. A elaboração e propagação de tecnologias ecologicamente favoráveis na industria e no agronegócio devem ser estimuladas.
8. A tomada de decisões estratégicas na economia não pode ser deixada só nas mãos de tecnocratas e marqueteiros. Pelo contrário, deve introduzir-se a possibilidade de que assuntos tais como o desenvolvimento da indústria, a cota de verba estatal destinada ao setor agrário etc., sejam produto de discussão democrática e eleições.
9. A sociedade civil deve seguir e monitorar de forma constante os setores privado e estatal. Isto deve ser institucionalizado.
10. A propriedade deve ser transformada em "economia mista", o que inclui cooperativas comunais, negócios privados e companhias estatais, mas exclui corporações transnacionais.
11. As organizações globais centralizadas do tipo FMI e Banco Mundial devem ser substituidas por outras, construídas, não segundo o princípio do livre mercado e da mobilidade do capital, mas nos princípios de uma cooperação que - nas palavras de Hugo Chavez que descrevem o projeto ALBA - "supere a lógica do capitalismo"(13).

É importante também aplicar à globalização a análise social. A metodologia de Jean Baudrilhard(14) permite observar a maneira a qual o financista e os mercados especulativos conduziram à criação de simulacros economicos que solaparam a vitalidade dos sistemas sociais. Não menos interessante é o modelo de Georges Bataille, que mostra a maneira que a competência econômica, característica do modelo liberal, está diretamente ligada ao risco da guerra. O sociólogo francês aponta que o excesso de energia, que se transforma em riqueza, deve ser gasto no desenvolvimento do sistema. De outro modo, se a energia não é extraída a tempo, infalivelmente se usa para produzir catástrofes. Ao tema que investigamos devemos agregar o fato dos entusiastas da globalização, dos EUA a Europa Ocidental, subscreverm que a interação estreita entre países e povos, que propiciem os processos de unificação de padrões e homogeneização de culturas, deve conduzir a menor probabilidade de conflitos; no entanto, a aparição de novos modelos levou a noas formas de guerra(15). E agora o sujeito ativo dos conflitos resultam ser não só os estados, mas também as corporações transnacionais, as ONG, as uniões religiosas, os agrupamentos criminosos e os partidos políticos. A Bellum Omnium contra Omnes de Hobbes se propagou por todo o mundo, tanto que os EUA pretendem exercer a função de Eatado absoluto - Leviatã.

Na crise do atual sistema liberal, da qual é testemunha a crise financeira de 2008, o reconhecimento de suas inadequação por parte de reconhecidos economistas, e as iniciativas de uma série de países quanto a reformar a ordem mundial, corresponde a mudança de enfoque das ciências que afetam a formação da comovisão da elite futura para práticas socio-culturais que, mais além de sua importância, durante muito tempo não recebeu atenção por parte da grande política. A crise ecológica que se acerca, que se dá sobre um fundo de crescimento da autoconsciência política de diversos povos aborígenes - quem ante havia sido separado da tomada de decisões (desde o socialismo boliviano de Sumac Kawsay com os projetos indigenistas latinoamericanos, até as tentativas dos povos africanos de se libertarem do escravismo neoliberal) - também pode contribuir para esses processos. A mudança de raciocínio deve ser complexa, com uma ativação das camadas arquetípicas que permita a atrofia das velhas memorias e a instalação de uma nova ordem mundial onde, num marco de florecente complexidade, se co-desenvolvam sociedades de abundância estável.

Tal como já indicamos no começo, há uma certa quantidade de dispositivos filosóficos que fixaram uma determinada direção no desenvolvimento das ciências, as quais foram tomadas como algo rígido que não pode ser submetido à crítica. O paradigma científico do iluminismo elaborou um racismo gnosiológico euro-ocidental que se projetou sobre outros povos, países e continentes, Aqu também pode tomar-se em conta o fato de que o corpus da filosofia da antiga Grécia chegou a Europa ocidental através do mundo arábico, e que foi submetido a distorções, mas que poucos foram os que se arriscaram a repensar as bases da existência. Sobre isto, é um exemplo, a herança de Martin Heidegger, mas, além de sua relativa complexidade, podem servir de base, a ótica da desconstrução para dissipar as estratificações especulativas e os envelhecidos mecanismos de construção socio-política.

Se pode dizer, a guisa de conclusão, que depois das três teorias políticas(liberalismo, marxismo e fascismo) e depois das tês ondas de globalização(substituição de três sociedades - tradição, modernismo e pós-modernismo, e também de modelos econômicos) se faz indispensável a elaboração de uma nova teoria política que produza uma nova onda, qualitativamente distinta das precedentes, onde o sujeito ativo fundamental sejam os povos do mundo. Enquanto que, é importante a formação de uma oposição e um movimento que se baseie no princípio"anti", e a elaboração de um anti-credo construtivo que, segundo o pensamento de Zbigniew Brzezinski, possa destruir o domínio global dos EUA(16). Nesta teoria, ou como a chama o filósofo francês Alain de Benoist "o quarto nomos da Terra"(17), os sujeitos da história dever os povos em seu processo puro de existência, com toda a riqueza de suas relaçõesculturais mútuas, tradições, especificidades étnicas e cosmovisões. Em cujo caso os modelos alternativos e as tentativas de muitos analistas, especialistas e opositores da globalização ocidental (que tem nos EUA sua cabeça) poderão encontrar uma extensa aplicação.

Por Leonid Savin.
Tradução do Espanhol: Dídimo Matos

[1] Деррида Жак. Глобализация, мир и космополитизм. Космополис № 2 (8), М., 2004, с. 126.
[2] Naim, Moises. Think Again: Globalization, Foreign Policy, March/April 2009.
[3] Martell, Luke. The Third Wave in the Globalisation Theory. International Studies Review, 9, 2, Summer 2007, p 177.
[4] Mann, Stiven. Theoty of Chaos and Strategic Thought, Parameters, Vol. XXII, Autumn 1992, p.62
[5] Дугин Александр. Четвертая политическая теория. – СПб: Амфора, 2009. С.10-11.
[6] Вебер Макс. Протестантская этика и дух капитализма. -Ивано-Франковск: Ист-Вью, 2002.
[7] Schumacher E.F., Small Is Beautiful: Economics as if People Mattered. Anthony Blond Ltd., London, 1973.
[8] Юнг Карл Густав, Фуко Мишель. Матрица безумия. – М.: Эксмо, 2007. С.99
[9] Лиэтар Бернар. Душа денег. – М.: Олимп:АСТ:Астрель, 2007.
[10] http://ru.wikipedia.org/wiki/LETS
[11] http://www.timebanks.org/
[12] http://www.wir.ch/index.cfm?DC86BF333C1811D6B9950001020761E5&o_lang_id=1
[13] Bello Walden B. The Virtues of Deglobalization. http://www.fpif.org/fpiftxt/6399
[14] См. Бодрийяр Жан. К критике политической экономии знака. – М.: Библион, 2004; Символический обмен и смерть. – Томск: Добросвет, 2009;
[15] Батай Жорж. Проклятая часть. – М.: Ладомир, 2006, с. 116-118.
[16] Бжезинский Збигнев. Выбор. Мировое господство или глобальное лидерство. – М.: Международные отношения, 2004. С. 198.
[17] Бенуа, Алан де. Против либерализма. К четвертой политической теории. – СПб.: Амфора. С.18

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